O Lider de uma linhagem budista visita Oxford para discutir o papel da Atenção Plena no mundo moderno, escreve Richard Lofthouse.
Não é todo dia que um líder de uma linhagem budista traz uma comitiva de monjas para Oxford para fazer kung fu no gramado. O cenário é Wolfson, a única faculdade de graduação situada em Cherwell do Lady Margaret Hall, norte de Oxford. Em um dia frio de primavera, quando a nevoa se levanta ao redor de Cherwell reduzindo o sol a um disco pálido, monjas de cabeças raspadas simulam lutas ao longo dos gramados ordenadamente grampeados enquanto o pessoal da faculdade assiste de uma distancia segura atrás das janelas. É um momento em Oxford que somente Oxford pode ter.
Um propósito da exibição é mostrar que Sua Santidade Gyalwang Drukpa, que lidera a linhagem Drukpa do Budismo Tibetano, fez um salto quântico em termos de gênero, contornando o peso da história de ensinar monjas diretamente. Em vez de ensinar monges para ensinar monjas, ele ensina monjas para ensinar monges. No Tibete, isso é uma revolução. Para efeitos da exposição no Wolfson, monjas praticando uma arte marcial chinesa simboliza dar poder as mulheres.
Outro objetivo da visita de Sua Santidade, que começou pela manhã no Oxford’s Mindfulness Centre (Centro da Atenção de Oxford), parte do departamento de psiquiatria próximo ao Hospital Warneford, foi ter uma discussão aberta com o diretor fundador do centro, o professor Mark Williams. Williams (St Peter’s, 1970) é professor de Psicologia Clinica e Principal Pesquisador membro da Wellcome* na Universidade, e uma autoridade mundial em depressão. O fórum aberto foi mais tarde descrito por Williams como “um grande encontro de mentes”.
A incongruência de um líder de uma linhagem do Budismo visitando um centro cuja pesquisa é financiada pelo Wellcome Trust* e que oferece serviço clinico para a NHS**, não passa desapercebido por mim pois, não somos nós todos ensinados que ciência e religião são basicamente discordantes uma da outra? O que, eu pergunto a mim mesmo, é Atenção Plena***, e como e porque ela tem intersecção com o Budismo?
Com o desenrolar da discussão eu aprendi que a Atenção Plena é baseada em práticas antigas do Budismo, onde o termo “atenção plena” vem da palavra ‘sati’ em pali que significa “estar consciente” ou “não esquecimento”. É uma adaptação ocidental de uma prática oriental. Durante o debate entre Sua Santidade e o Professor Williams, os termos “atenção plena” e “meditação” foram usados alternadamente sem qualquer conflito perceptível, embora Williams mais tarde ressaltou que a consciência que a meditação cultiva é um dos seus processos centrais, mas não é o único – uma importante observação, se nos permite, é que a maioria das tradições religiosas têm tido um aspecto meditativo, e não somente o Budismo.
Ainda mais surpreendente é o fato que a ciência tem ido para o lado dessas práticas meditativas que remontam pelo menos 2500 anos.

S.S. Gyalwang Drukpa e Professor Mark Williams, fundador e diretor do Oxford’s Mindfulness Centre (Foto: Dave Caudery)
Em vez de meramente explicar a experiência da meditação em termos de sentimentos, nós agora sabemos porque a meditação funciona. No Reino Unido, isso é uma revolução. Primeiro, move o que é frequentemente conhecido pela grande mídia como uma discussão leve de “bem estar” para uma terra firme e, em segundo lugar, Atenção Plena (o termo clinico é Terapia Cognitiva baseada na Atenção Plena, MBCT) tem profunda implicação para o tratamento da depressão.
Pesquisadores estudando pessoas que meditam regularmente descobriram não somente que elas se sentiam mais felizes, mas a Ressonância Magnética dos padrões dos cérebros delas mostraram que isso refletia na maneira do cérebro trabalhar. Há uma parte da superfície do cérebro chamada ínsula*** que se torna mais ativa durante a meditação. Durante um longo período de tempo a meditação regular pode, na verdade, alterar a estrutura física do cérebro, de acordo com pesquisa conduzida pelo Hospital Geral de Massachusetts. A ínsula*** controla muitas das características que consideramos central para humanidade, tal como a empatia. Williams explica: “Essa parte do cérebro é essencial para o nosso senso de conectividade humana que nos dá acesso àquelas sensações do corpo que ajudam a cultivar a empatia de uma maneira muito real e visceral.”
A conexão com a depressão é que a empatia com você mesmo, assim como com os outros, tem enormes efeitos benéficos na saúde e no bem-estar. Pode libertar indivíduos do estreitamento, da sensação de estar em um túnel que a depressão pode trazer.
Uma análise recente reunindo todos os testes da MBCT com pessoas que sofreram uma ou mais crises de depressão demonstraram que aquelas que tinham se submetido a um programa de 8 semanas da MBCT eram 44% menos propensos a sofrer outro episódio depressivo.
Tão forte é a evidencia que a sustenta, que o Instituto Nacional do Reino Unido para Saúde e Excelência Clinica (NICE) recomenda a MBCT para aqueles que sofrem de recorrentes episódios depressivos.
Os sintomas clássicos das pessoas que experenciam níveis maléficos de stress incluem dificuldade de permanecer focado no que eles estão fazendo, sentir constante cansaço, estar preocupado com o futuro ou com o passado, e fazer correndo as atividades sem realmente prestar atenção no que elas estão fazendo.
Na essência, as técnicas do Professor Williams treinam as pessoas a se concentrar no que está acontecendo a cada momento, a fim de ver mais claramente os padrões da sua mente e a ajudá-las a desenvolver o foco, a concentração e a perspectiva.
Um vital elemento é responder gentilmente ao estado no qual elas se encontram, ao invés de julgar duramente a elas próprias . “Isso requer prática e alguma persistência, mas é possível,” diz o Professor Williams.
“Uma das coisas que as pessoas precisam quando elas estão estressadas é encontrar dentro delas mesmas um lugar de silêncio”, ele explica. “A prática da Atenção Plena permite as pessoas fazerem isso”.
Sua Santidade aborda o assunto com um vocabulário diferente, um pouco mais abrangente, mas projeta uma mensagem comum. Reduzir apegos a emoções intensas; conter o ego; aceitar você mesmo, descobrir compaixão. Se refere a isso como ”Iluminação Diária”, indo no caminho da felicidade no mundo moderno (“Iluminação Diária” é o mais recente livro de S.S. Gyalwang Drukpa). Também poderia ser ”Atenção Plena:
um guia prático para encontrar paz em um mundo frenético” (livro recente de Williams), no qual os terrenos se sobrepõem enormemente.
Acima de tudo, ambos insistem na ação ao invés do debate. Durante o encontro com Sua Santidade, Williams brincou sobre a diferença entre ler sobre Atenção Plena e praticá-la. “Eu tenho todos os tipos de livro sobre jardinagem, mas sair com uma espátula e plantar algo é muito mais difícil!” Em outras palavras, “meditação é ação”. Não é só uma idéia. É ai que está a dificuldade, pois é muito mais difícil se libertar das tempestades da vida cotidiana do que se imagina. Iluminar sua ínsula**** requer uma grande quantidade de trabalho e paciência.
Outra sobreposição diz respeito a aceleração do ritmo de vida do século vinte e um – isso não é um repúdio ao mundo moderno, de forma alguma, mas uma constatação. Como Sua Santidade coloca “Nossa lista de “tudo” está sempre crescendo, nossas metas se tornando maiores e mais brilhantes do que nunca. Quando a vida se tornou uma corrida?”
Outra visão compartilhada é que Consciência/Atenção Plena é uma ação livre de religião, a menos que o praticante queira dar-lhe significado religioso – uma posição que confirma a privatização da convicção religiosa no mundo moderno. Isso é onde o Budismo é conveniente no ocidente, porque sua doutrina tem uma roupagem leve em comparação com algumas religiões monoteístas. Sua Santidade deixou claro que sua missão não é evangélica. “Não coloque compaixão na moldura da religião”, ele avisa. “Vocês olham para mim como um religioso por causa das minhas vestes, isso é muito lamentável!… É uma pena. Todas as religiões estão em um espaço problemático nos dias e hoje…”
O Best-seller de Colin Thubron “Para uma Montanha no Tibete” ou o incomparável “A História do Tibete” de Thomas Laird, indica que há um mundo de complicações e oportunidades religiosas (depende do seu ponto de vista) que está sendo deixado de lado aqui. Laird atrai incredibilidade a alguns aspectos mágicos do Budismo quando fala com Sua Santidade Dalai Lama, enquanto Thubron não consegue ele mesmo dissolver a alma individual em face do que seria essencialmente uma filosofia niilista.
Pegando a sequência seguinte de Thubron, ele encontra um genial jovem monge chamado Tashi, durante os três anos de seus estudos. Tashi recusa a chamar o Budismo de filosofia, muito menos o acha uma doutrina. “Nós não temos Deus”.
Thubron continua [citando as palavras do monge Tashi]:
“Os deuses são somente guias para a iluminação que, quando atingida, apagaria-os. Seus braços ficariam impotentes desdobrados dos seus peitos. Eu acho que isso é ciência. Qualquer um pode fazer uma iluminação. Eu acho que você pode fazê-lo.”
Thubron contempla:
“Eu tentei imaginar isso, mas as palavras nadaram na minha mente: vida rejeitada, auto-hipnose, eliminação da diferença que traz a amada, morte prematura…Mas o Tantra era um meio de se viver, Tashi disse, e não uma doutrina a ser apreendida. Você não pode apreendê-la até você experenciá-la. Embora então possa ser talvez tarde demais para voltar. “
Há ainda outras complicações, tais como a questão de que porque 2500 anos de Consciencia/Atenção Plena fizeram tão pouco para dar poder às mulheres?
No entanto, apesar dessas questões, S.S. Gyalwang Drukpa, obviamente dirigindo-se ao ocidente tanto quanto ao oriente, esteve brincando com o ocidente, na mensagem de entregar-se a sentimentos compostos de maravilhosa felicidade .

Monja de S.S.Gyalwang Drukpa praticando kung fu.
Mais tarde, quando ele falou para uma audiência diferente em Wolfson, uma “não-NHS**, audiência não-cientista” se você preferir, ele contou sobre o sucesso da sua Pad Yatra, uma caminhada de 400 kilometros pelos Himalaias, com duração de 42 dias, feita há três anos, que foi reproduzida no brilho da mídia . Ele falou sobre o karma positivo purificando o negativo como conseqüência da caminhada e sobre o fato que um terço da população mundial depende da bacia hidrográfica dos Himalaias que flui para a Índia e para a China e, portanto, sobre a importância de plantar árvores e recolher o lixo, e da emancipação feminina e da boa educação.
Ele não esteve tentando nos tornar budistas, insistindo que a Pad Yatra não é uma peregrinação, mas uma maneira de se reconectar com a natureza, incluindo a nossa própria natureza.
Williams, um cânone honorário da Igreja Cristã, falou sobre a Atenção Plena como “espiritualidade securalizada”. “É a sabedoria dos valores universais”, ele diz. “Os valores não existem para serem enterrados numa catedral ou em um templo ou num monastério. Mas igualmente, não é fácil de implementar. Requer esforço.” Em seu livro ele se esforça para manter que “meditação não é religião”. Ele continua: “Atenção Plena é um modo de consciência que está disponível para todos, e o treinamento da mente e do corpo da meditação nos ajuda a percebê-la da nossa própria maneira.”
Isso ajuda a melhor explicar a organização Drukpa “Live to Love” que é descrita no website como uma “organização secular humanitária”. Os cinco pilares do Live to Love são: sustentabilidade ambiental; alivio e socorro; saúde; educação e patrimônio cultural, com ativos projetos em cada categoria. O elemento educativo da Live to Love enquanto uma organização que já tem uma dimensão internacional, explica parcialmente sua visita de cortesia à Universidade.
As monjas finalizaram a visita com a demonstração de kung fu nos gramados de Wolfson, mostrando que a globalização está aqui para ficar e tem seu aspecto positivo. No caminho para tomarmos chá, eu perguntei a uma das monjas, Jigme Rigzin, porque elas fazem kung fu. “Nós estávamos enfrentando problemas de preguiça”, ela explica. “Ah, eu vejo”, disse. “Então há uma dura contra-partida física para a meditação?” “Sim”, ela responde.
*Welcome Trust: Uma fundação beneficente global dedicada a alcançar extraordinários avanços na saúde humana e animal.
** National Health Service (NHS): sistema público de saúde da Inglaterra
*** Do inglês mindfulness ou atenção plena. Do páli sati, sânscrito smrti, do tibetano dren pa. ”Drenpa” em tibetano é definida de uma forma geral como o aspecto da mente que funciona sustentando/retendo/mantendo a mente a seu objeto, não deixando com que a mente esqueça ou se desvie de seu objeto. O segundo aspecto de “Drenpa” é ‘recordar-se’, ‘relembrar-se’. O terceiro aspecto de “Drenpa” é exatamente este potencial que se manifesta como “não-distração”. Na língua portuguesa, o primeiro aspecto de ‘dren pa’ ou o inglês mindfulness, pode ser traduzido simplesmente como ‘atenção’. Atenção por definição, é plena. Se não for plena, significa desatenção. Entretanto, há uma forma corriqueira de usar a palavra atenção, que foge um pouco do tipo de ‘atenção unifocada e plena’ da qual Drenpa indica. Portanto, há a preferência em sinalizar este aspecto com a tradução ‘atenção plena’ para o inglês mindfulness.
**** Insula: é um lobo profundo, situado no fundo do sulco lateral, no encéfalo. Suas principais funções são fazer parte do sistema límbico e coordenar emoções, alem de ser responsável pelo paladar.
Um minuto de meditação
1) Sente ereto em uma cadeira com encosto reto com os pés todo no chão e os olhos fechados
2) Concentre sua atenção na sua respiração como flui dentro e fora do seu corpo. Fique em contato com as diferentes sensações de cada inspiração e de cada expiração. Observe a respiração sem esperar que nada especial aconteça. Não há necessidade de alterar sua respiração de qualquer maneira.
3) Depois de um tempo sua mente pode divagar. Quando você notar isso, traga sua atenção de volta para sua respiração, sem forçar você mesmo. O ato de perceber que sua mente divagou e de trazer sua atenção de volta sem criticar você mesmo, é fundamental para a prática da meditação da atenção.
4) Sua mente pode se tornar calma como um lago ou talvez não. Mesmo se você tem a sensação de absoluta calma, ela pode ser somente momentânea. Se você sentir raiva ou irritação, observe que isso também pode ser passageiro. O que quer que aconteça, permita ser como é.
5) Após um minuto, abra seus olhos e se permita estar na sala novamente.
Biografia
S.S. Gyalwang Drukpa é o líder da Linhagem Drukpa, uma das principais linhagens do Budismo Tibetano. Essa linhagem de mestres reeencarnados iniciou com o erudito Marra-Sidha Naropa. O atual Gyalwang Drukpa, Jigme Pema Wangchen, é o décimo segundo da linhagem.
Mark Williams é professor de Psicologia Clínica e principal pesquisador da Universidade Wellcome. Ele é membro da Academia de Ciências Médicas, membro da Academia Britânica e membro da Associação dos Estados Unidos para Ciência Psicológica. Em Oxford, ele é membro da Universidade Linacre e um cânone honorário da Igreja Cristã.
Fonte: https://www.oxfordtoday.ox.ac.uk/page.aspx?pid=1856